Katleen Conceição, dermatologista especializada em pele negra

Por Maria Cecília em 31/08 | 6956 |

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Pele escura não precisa de grandes cuidados, é naturalmente protegida contra o envelhecimento e os danos causados pelo sol? A dermatologista carioca Katleen Conceição, especialista em pele negra, não se cansa de explicar que a história não é bem assim. Apesar de menos sujeita a queimaduras e rugas, ela é muito mais propensa a desenvolver manchas. E, por causa disso, demanda um carinho todo especial – seja na hora do cuidado diário, seja no momento de tratar marcas já instaladas. Foi sobre esses segredos tão específicos que conversamos durante uma longa entrevista – feita durante uma visita recente ao Rio de Janeiro, entre as garfadas de um delicioso jantar.

Maria Cecília Prado: Por que é um mito dizer que a pele escura ou negra não precisa se proteger contra o sol?
Katleen Conceição: Porque as pessoas embaralham um pouco duas questões. Quanto mais escura a pele, maior é sua carga de melanina, e essa substância, responsável por pigmentar a pele, tem sim a capacidade de criar uma proteção contra o sol – e contra as queimaduras e rugas. Por outro lado, a riqueza de pigmento natural leva a uma predisposição a manchas. É muito mais comum ocorrer um extravasamento de melanina, ou seja, o pigmento se espalhar de uma maneira meio descontrolada, cada vez que a pele sofre algum tipo de agressão. E qual é a melhor estratégia para evitar que uma espinha ou um pelo inflamado, uma depilação feita sem delicadeza ou um corte ou pancada provoquem escurecimento irregular? Manter a pele protegida contra a luz solar. Ou seja, quem é morena precisa sim se proteger no dia a dia, usar um bom filtro ou uma maquiagem que contenha FPS.

MCP: Quem já manchou, como faz?
KC: A maneira mais rápida de combater manchas é usando laser. Mas não qualquer laser, e sim aqueles fracionados, que atuam sobre a pele de uma forma pontilhada – estimulam um milímetro sim, outro não. Eles agridem menos e, com isso, tratam com menor risco de provocar novas manchas. Há vários equipamentos* desse tipo que o dermatologista pode utilizar. Eles têm comprimentos de ondas diferentes – uns atuam mais superficialmente, outros na camada basal da epiderme – e são selecionados pelo médico depois que ele analisa a pele e define a extensão e a profundidade das manchas.

MCP: Os resultados aparecem rapidamente?
KC: Para que eles sejam muito bons (é possível chegar a 100% de melhora), recomendo três sessões em sequência – uma a cada dois ou três meses. Mas desde a primeira delas já é possível observar a melhora. Os resultados só não são tão evidentes quando a mancha em questão é o melasma, que tem causa hormonal. As desse tipo são mais difíceis de tratar.

MCP: Dói?
KC: Tudo depende de qual é o protocolo seguido pelo dermatologista. Aqui na clínica [Clínica Dermatológica Paula Bellotti, onde a Dra. Katleen atende], passamos pomada anestésica antes e assim que a sessão de laser acaba já resfriamos a pele com máscara ou água termal gelada ou então com uma massagem feita com rolinho de metal. E como aplicamos um creme ou loção calmante no final do processo, a chance de a pele ficar irritada ou sensível é bem menor.

MCP: E quando a paciente sai da clínica, o que precisa fazer?
KC: A primeira é ingerir um filtro solar em cápsula ou comprimido – isso é imprescindível para evitar que a pele negra responda ao laser ficando inflamada e que, com isso, venha a desenvolver novas manchas. Pelo mesmo motivo, é importante usar um filtro solar com FPS 25, no mínimo. Costumo recomendar bases desenvolvidas especificamente para serem utilizadas no período posterior a um tratamento, caso da Oxygenetix – ela é adequada para peles sensibilizadas e já vem com proteção solar. À noite, é preciso aplicar géis ou loções oil-free de efeito calmante e regenerante, que incluam componentes como zinco, feverfew, aloe vera, água termal… Há vários produtos cosmecêuticos que se encaixam nessa descrição, como é o caso do do Cicalfate [La Roche-Posay], do Pro Calm [Roc] do Cicaplast [Avène]. Além de acalmar, eles auxiliam na cicatrização.

MCP: Qual seria a alternativa caso a paciente com manchas não queira investir em um tratamento a laser?
KC: Peelings à base dos ácidos retinóico, salicílico, mandélico ou lático, que têm um custo menor, também podem ser indicados para tratar as manchas na pele negra. O inconveniente é que eles demoram mais para fazer efeito. São necessárias no mínimo seis sessões – ou seja, o dobro das indicadas no caso dos lasers – para atingir o resultado final, com intervalo de 45 a 60 dias entre elas.

MCP: A paciente terminou o tratamento, ficou satisfeita. E aí, qual o caminho para manter a pele impecável depois?
KC: Usar filtro solar com cor com FPS 25, no mínimo, todo santo dia e, antes dele, aplicar um tratamento com ativos antioxidantes, como a vitamina C – já está provado que essa medida potencializa a proteção da pele, sem contar que ajuda a manter o seu tom mais regular. Ao longo do dia, lembrar de retocar a proteção com um pó ou base em pó com FPS alto, como é o caso das bases compactas das marcas Shiseido e Adcos. À noite, antes de dormir, deve-se passar algum tratamento clareador, que contenha arbutin, ácido kógico, ácido dióico ou skinwhitening complex, que inclui extratos de uva-ursi, de grapefruit e de arroz. Ele deve ser alternado, seguindo a indicação do dermatologista, com um creme ou loção à base de ácido retinóico.

MCP: Mas não é coisa demais para fazer, Dra. Katleen?
KC: Não é, não. Quando a gente lista assim, até parece muito. Mas é quase nada se você considerar o pouco tempo que esses rituais consomem e o tamanho do benefício que eles podem proporcionar. Quanto melhor você se cuida, menos tem que se preocupar depois.

Nota do Beauty Editor: máquinas como Fraxel, CO2, Emerge ou Clear + Brilliant