João Carlos Pereira, dermatologista expert em transplante capilar

Por Maria Cecília Prado em 29/12 | 0 |

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O dermatologista João Carlos Pereirada Clínica Derm, em São José do Rio Preto, é um dos maiores especialistas em transplante capilar do Brasil. Alguns dias atrás, a repórter Letícia Homsi, colaboradora do Beauty Editor, conversou com ele sobre um problema que afeta mulheres a partir dos 25 anos e que se acentua com a idade: a calvície feminina. Em uma entrevista cheia de detalhes, o médico explicou o que diferencia a calvície da queda de cabelo, explicou como se trata cada uma delas e falou sobre a mais nova arma contra a perda definitiva de cabelo: o robô Artas, equipamento hi-tech que chegou há menos de um mês à sua clínica.

Letícia Homsi: O que faz uma pessoa perder o cabelo?
João Carlos Pereira: Primeiro, vamos deixar um ponto bem claro: existe a queda de cabelo e existe a calvície. São dois problemas diferentes. A queda é algo mais comum e pode se intensificar por conta de fatores variados, como mudanças hormonais (como a gravidez ou a menopausa nas mulheres), situações de stress ou cirurgias que provoquem mudanças agressivas no organismo (caso, por exemplo, da cirurgia bariátrica). Já calvície é a perda de cabelo que tem um gatilho genético, é herdada tanto do pai quanto da mãe. Costuma ser irreversível e a única solução para ela é fazer um transplante – colocar novos fios nas áreas onde a perda ocorreu.

LH: A calvície feminina acontece nas mesmas áreas da cabeça que a masculina?
JCP: Não. Nos homens,a calvície é mais perceptível porque ocorre em regiões específicas: as entradas laterais e o topo da cabeça. Já nas mulheres, a diminuição ocorre na cabeça toda. Ela é difusa, mais homogênea e raramente é total. A gente a percebe porque o couro cabeludo começa a ficar mais visível sob os fios.

LH: Quais são os tratamentos mais eficientes para a queda temporária e para a definitiva?
JCP: A perda acentuada, porém temporária, pode ser revertida de várias formas, como com suplementação de nutrientes, ajustes na dieta e tratamentos tópicos, como a aplicação de Minoxidil (medicamento vasodilatador) no couro cabeludo. Sempre, claro sob a supervisão de um médico. Existe também a mesoterapia, microinjeções de vitaminas, aminoácidos e outros princípios ativos que são dadas com uma seringa ou com uma pistola automática. Este último tratamento é mais polêmico: há médicos que gostam, outros, como eu, não fazem por acreditar que não haja muito resultado. Já a calvície hereditária, como já mencionei antes, só pode ser revertida com o transplante capilar. Mas mesmo assim é preciso fazer uma avaliação cuidadosa, caso a caso. O médico precisa checar primeiro se o couro cabeludo está em boas condições para receber os novos tufos de cabelo, pois só assim eles se fixarão e crescerão da forma esperada.

Mais detalhes sobre a cirurgia

LH: Qual a diferença entre a cirurgia tradicional de transplante e a cirurgia feita com o robô Artas?
JCP: Na cirurgia manual, os enxertos são obtidos a partir de um segmento (uma tira) de couro cabeludo que é removido previamente da cabeça – em geral, ele é tirada da nuca. Os tufos são retirados dessa fatia de pele, tratados pelo médico e enxertados na região que se deseja tratar. Dá ótimos resultados, mas o pós-operatório é chato: o paciente sente dor e ganha uma cicatriz grande, que só fica disfarçada depois que os fios voltam a crescer sobre o local. Com o robô, não há necessidade de se remover a tira do couro cabeludo. O paciente fica deitado de bruços, anestesiado, enquanto a máquina se ocupa de toda a primeira parte da cirurgia: tira, um a um, os tufos necessários para fazer o implante. A parte do implante continua igual, é feita manualmente pelo dermatologista. Mas as vantagens de se incorporar o robô à operação são grandes. Não há cicatriz, o incômodo depois da operação é muito menor e o tempo de recuperação é curto: em 48 horas a paciente pode retomar suas atividades habituais (apenas para praticar esportes o intervalo é mais longo – deve-se evitar por pelo menos uma semana).

LH: Quem não pode fazer o transplante capilar com o Artas?
JCP: As mesmas mulheres que não podiam passar pelo transplante tradicional: grávidas, com algum problema de saúde que impeça cirurgias ou aquelas que têm poucos cabelos para serem transplantados – ou fios extremamente finos.

LH: O robô só pode ser utilizado nos transplantes capilares ou também pode ser usado para repor fios em outras áreas, como as sobrancelhas?
JCP: Os cabelos extraídos do couro cabeludo pelo Artas podem sim ser utilizados na sobrancelha. E também podem ajudar a repor os fios em áreas que foram afetadas por acidentes e queimaduras, por exemplo.

LH: E nesses casos o resultado não fica artificial? Porque os pelos da sobrancelha, por exemplo, são diferentes, um pouco mais grossos, do que os fios de cabelo que partem do couro cabeludo…
JCP: Não fica exatamente igual, eu concordo. Mas você precisa considerar quenesses casos a operação não é de rotina – só se recorre à ela quando for extremamente necessário.

LH: A pessoa precisa tomar algum cuidado especial antes de se submeter à cirurgia?
JCP: Deve fazer exames de sangue, eletrocardiograma e o que mais o médico considerar necessário para checar suas condições de saúde. Fora isso, não existe nenhuma regra a ser seguida. A duração da cirurgia é em torno de 6 horas e pode ser realizada somente sob anestesia local, ou com anestesia local e sedação (o que traz mais conforto para a paciente).

LH: Logo após o transplante, como fica a aparência do couro cabeludo? E que tipo de cuidado é preciso ter para não prejudicar a recuperação e a fixação dos fios nos novos lugares?
JCP: Nos primeiros dias, o couro cabeludo apresenta pequenas crostas – do tamanho da cabeça de um alfinete – nos locais onde os novos fios foram implantados. Elas vão caindo progressivamente e desaparecem em no máximo dois meses. No dia seguinte à cirurgia, o cabelo pode ser lavado apenas com água, e com muita delicadeza. Depois dessa primeira lavagem, o recomendado é repetir a limpeza após o quinto dia, e somente com xampus e condicionadores indicados pelo médico. Esses cuidados de beleza especiais são mantidos por cerca de um mês.

LH: Em quanto tempo os resultados começam a aparecer?
JCP: Fios novos começam a nascer 90 dias após a cirurgia e o resultado final aparece depois de um ano. No início, a pessoa pode perceber diferenças no comprimento, porque os fios enxertados são curtos e tendem a cair para que nasçam outros, já implantados no novo local. Isso talvez incomode um pouco no começo, mas basta pentear com cuidado para disfarçar a diferença e garantir a beleza do visual. Com o passar do tempo e com a retomada dos cortes no ritmo habitual, o cabelo ganha um caimento melhor, mais harmônico.

LH: Os resultados com o novo método são permanentes?
JCP: Sim. A colheita dos folículos capilares é realizada em áreas que não são afetadas pela herança genética. Por isso, o cabelo implantado vai durar a vida toda.

LH: Mas e se a pessoa, no futuro, desenvolver uma nova calvície? Perder cabelos que já tinha e voltar a ficar com o couro cabeludo aparente?
JCP: Nesse caso, não há o menor problema em fazer um novo transplante. Isso, claro, desde que se faça uma nova avaliação prévia da paciente e do seu caso.

Foto: arquivo pessoal Letícia Homsi

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