Blog das convidadas

Julia Fernandez

As convidadas 1/3

Costumo brincar e dizer que sou uma “cheiradora profissional”. E, jogo de palavras à parte, a verdade é que estou sempre procurando um novo frasquinho de perfume pra cheirar e decodificar o que têm lá dentro. Sempre fui apaixonada por perfumes, mas foi somente após me formar em Desenho Industrial que decidi trocar os projetos de automóveis pelo criação olfativa. Desde 1998 trabalho no desenvolvimento de fragrâncias e em 2007 fui transferida para Nova York para trabalhar com Design Olfativo. Em paralelo, fiz MBA em Gestão de Marcas de Luxo e tudo o que aprendi no curso agora me ajuda a analisar o frenesi de lançamentos – que não para um só minuto. Aqui no meu espaço dentro do Beauty Editor quero, além de explorar o universo das novidades, trazer pra vocês em primeira mão aquelas tendências que mal despontaram no mercado. E, claro, falar de outras gostosuras desse mundo cheirosérrimo – e delicioso demais.

Remasterizando perfumes: o que escolher quando você quer mudar de fragrância

Experimentando novos horizontes olfativos

Por Julia Fernandez em 20/04 | 0 |

Quando um perfume muito querido do nosso arsenal acaba, comprá-lo de novo é um processo bem simples e objetivo – é só ir até a loja mais próxima e providenciar a reposição. Mas quando estamos sentindo falta de uma novidade perfumada em nosso dia a dia, é sempre difícil saber por onde começar. A maioria dos perfumes têm um DNA (= um caminho criativo) único, e no geral é aquilo que nos atrai nele. Mas, investigando um pouco, dá para encontrar criações que a-) tenham algo em comum com aquele que acabou e, assim, não briguem com o que você considera sua assinatura olfativa – o seu jeito de se perfumar e b-) por outro lado, tragam alguma pegada nova, aquele up que você está buscando. O post de hoje vai servir exatamente para isso – ajudar você nesse trabalho de investigação e de atualização da coleção de perfumes!

Um bom começo é saber a família olfativa da fragrância que acabou e quais são as suas principais características (se é um floral frutado,  se é um docinho tipo algodão doce, se é fresco com cítricos…). Depois, ir em busca de “parentes”, de fragrâncias que falem uma língua parecida. Para ajudar você a selecionar o próximo perfume, segue uma lista de idéias usando como referência os perfumes importados mais vendidos no Brasil.

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J’Adore, Christian Dior (floral frutado)J’Adore é um queridinho mundial. Desde seu lançamento, em 1999, o perfume permanece forte no ranking dos mais vendidos globalmente. O poder do J’Adore está em sua composição floral ultraluminosa e radiante, que se difunde de uma maneira única, especial. A composição abre fresquinha, com notas cítricas de mandarina e de bergamota, mas que são cremosas e femininas. Mas é no coração que está seu grande poder olfativo: ele traz notas de jasmim e de pêssego, que formam uma construção feminina e potente.
Remasterize para: florais ainda mais luminosos, que tenham em sua composição menos florais brancos e mais diversidade floral – tragam, por exemplo, íris, rosa e gardênia. Adote perfumes com toques frutados arrojados e pouco enjoativos, como Jour (Hermès), Baiser Voile (Cartier), Juicy Couture (Juicy Couture), Paradiso (Roberto Cavalli), Echo Woman (Davidoff) e The One (Dolce & Gabbana).

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Light Blue, Dolce Gabbana (cítrico frutado) – O Light Blue foi certeiro no gosto da brasileira: tem um frescor inigualável, com notas cítricas supersuculentas na saída, um acorde de maçã verde fresquinha com flores bem delicadas e notas de fundo amadeiradas superconfortáveis, que fazem o perfume aguentar longas jornadas em calores tropicais sem perder sua vitalidade.
Remasterize para: versões ainda mais elegantes, com cítricos mais equilibrados e menos afiados (as notas frutais são mais sutis) e notas florais um pouco mais evidentes, como Miu Miu (Miu Miu), Cologne (Thierry Mugler), CH (Carolina Herrera), Daisy Eau so Fresh (Marc Jacobs), B. (Balenciaga), Blu Mediterraneo Fico d’Almafi (Acqua di Parma).

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212, Carolina Herrera (floral fresco) – O 212 foi lançado em 1999, inspirado na pulsante Nova York, no espírito da nova juventude urbana e com um frasco inovador (a consumidora pode guardar um frasquinho na bolsa e o outro em casa). É ultraversátil, pode ser usado no dia a dia, para trabalhar ou ainda para sair à noite. Também ganhou o coração da brasileira, pois é floral sem ser enjoativo; fresco sem ser masculino e tem um cheirinho limpo, sem interferências pesadonas de notas de fundo que possam enjoar.
Remasterize para: muitas águas rolaram depois do lançamento de 212, e o mundo floral renasceu, deixando para trás o legado de que todo perfume floral é pesadão. Uma boa ideia é procurar florais ainda mais modernos, que vêm acompanhados  de frescor e personalidade, alguns trazendo notas clássicas e aldeídicas em uma “roupagem” nova e outros adicionando notas mais sensuais pra deixar o básico com mais personalidade e vigor. Vale tentar estes aqui: Belissima (Bluemarine), Boss Femme (Hugo Boss), Bright Crystal Absolu (Versace), L’Eau de Carven Eau de Toilette (Carven), Love Story (Chloe), Flora (Gucci).

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Very Irresistible, Givenchy (floral rosado)Very Irresistible veio para mostrar ao mundo que nem toda fragrância rosada precisa ser antiquada, com cheirinho de cosmético da vovó. Quando lançado, em 2003, foi um sucesso imediato. A composição possui cinco tipos de rosas, cada uma trazendo uma faceta diferente ao perfume, da leveza e da modernidade a notas gustativas e viciantes.
Remasterize para: composições nas quais a rosa continue sendo a musa-mor dos perfumistas, especialmente aquelas que tragam um destes dois acordes com mais evidência: o de rosa em pétala – leve, aquosa, luminosa e levemente cítrica – e o de rosa ultravintage, com notas mais elegantes, sensuais e aveludadas. Rota mais “pétala”: Acqua Nobile Rosa (Acqua di Parma), Stella (Stella McCartney), Esta Flor Rosa (Natura), Valentina Acqua Florale (Valentino). Rosa mais “vintage”: Evening Rose (Aerin Lauder), Lipstick Rose (Frederic Malle).

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Fantasy, Britney Spears (floral gourmand) – Quem diria que entre tantos altos e baixos da Britney Spears, quem se manteria na parada de sucessos seria seu perfume? Seguindo na trilha que Angel pavimentou anos antes, Fantasy veio para afirmar que a tendência gourmand cresce exponencialmente entre a audiência mais jovem. O perfume grita frutinhas vermelhas com muito algodão doce, que aos poucos se transforma em uma nota de chocolate e caramelo, sem deixar aquele lado pesadão que o Angel deixa nas horas finais do perfume.
Remasterize para: os gourmands passaram da explosão de baunilha para o algodão doce e o cupcake, depois encontraram facetas mais interessantes no praline (notas açucaradas de nozes e amêndoas), notas de café, chocolate amargo… Ou seja, viraram um pouco mais “adultos” e menos enjoativos. Também ganharam a parceria de frutais mais suculentos, que equilibram o excesso de glicose olfativa. Alguns bacanas nessa linha mais moderna que vale a pena experimentar: Candy Love Glam (Agathe Ruiz de la Prada), CK One Shock (Calvin Klein), Born in Paradise (Escada), Sweet (Lolita Lempika), Fève Delicieuse (Dior), Hmmm…Candy! Sugar Chic (Avon).

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Glow, Jennifer Lopez (floral almiscarado) – No oposto olfativo de Fantasy, de Britney Spears, Glow de Jennifer Lopez (sua primeira fragrância) é uma delicadeza composta com notas frutais leves (uma notinha de pêra tão sofisticada!), um coração de flores que não incomodam e as notas de base de um almíscar que prolonga a sensação de pele recém-saída do banho. Glow foi uma (ótima) surpresa, pois nasceu bem menos exuberante que sua porta-voz e acabou virando praticamente um clássico na categoria de fragrâncias segunda pele.
Remasterize para:  as fragrâncias fresquinhas que duram, como é o caso de Glow, continuaram evoluindo e incorporando componentes mais florais e aquáticos. Lembram um pouco a tendência dos idos dos anos 90, mas são mais encorpados nas notas que “abraçam” a pele, trazendo madeiras brancas e especiarias. Alguns exemplos: Acqua di Gioia (Giorgio Armani), English Pear & Freesia (Jo Malone), Bamboo (Gucci), Incanto Bloom (Salvatore Ferragamo), Ivoire (Balmain), Modern Muse (Estée Lauder).

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Amor Amor, Cacharel (floriental frutado) – A delícia docinha de Cacharel representou uma nova geração de fragrâncias jovens, suculentas e sedutoras, uma evolução natural das coleções de Escada (que exploravam em abundância as nuances frutais), com a sedução e a doçura dos avós Angel e Vanilla Fields. Em Amor Amor tudo parece se equilibrar: o doce dá água na boca, a fruta é feminina e descontraída e as madeiras e especiarias são sedutoras e provocantes. É divertido e chic!
Remasterize para:  versões mais adultas, que seguem a mesma linhagem chic-divertida, mas dão mais ênfase no lado amadeirado, deixam o docinho mais controlado (notas mais secas, menos exuberantes), e apostam em notas frutais negras e vermelhas para descontrair. Gosto de Lady Million (Paco Rabanne), Bon Bon (Viktor & Rolf), See (Chloé), Pleats Please (Issey Miyake), Tom Ford Noir Extreme (Tom Ford), Manifesto (Yves Saint Laurent).

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Laguna, Salvador Dali (floral aquoso) – Certamente este foi o primeiro perfume importado de muitas leitoras (juntamente com o Gabriela Sabatini)!  Apesar de pouco conhecido no exterior, Laguna continua um sucesso no Brasil, muito provavelmente pelo equilíbrio do frescor com as notas florais. É um floral aquático à la início dos anos 2000, com menos notas de “detergente em pó” (como foi o caso do CK One), e mais notas florais aquosas, de jasmim, maçã e gardênia. O perfume é versátil (tanto quanto o 212) e continua sendo padrão de frescor, mesmo tendo um floral mais encorpado que o Light Blue, por exemplo.
Remasterize para:  versões refrescantes que trouxeram mais vitalidade e profundidade em suas composições olfativas. Notas de íris, por exemplo, voltaram com tudo. A íris é uma nota floral-amadeirada extremamente sofisticada, que traz ao perfume uma multifaceta refrescante. Também vale a pena suavizar na nota floral branca e trazer mais elementos herbáceos e de chá. Sugestões: Infusion d’Iris (Prada), Chance Eau Vive (Chanel), Calyx Exhilarating (Clinique), Chá Branco (Korres), Balenciaga (Balenciaga), Un Jardin Après la Mousson (Hermès).

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Angel, Thierry Mugler (Gourmand) – O precursor dos gourmands modernos foi lançado em uma época onde todas as fragrâncias eram minimalistas e aquosas, com notas de melancia e melão. Causou um tremendo estranhamento no início… alguns declararam que o perfume era grosseiro e enjoativo. Mas Thierry Mugler não se deu por vencido e seguiu em frente com o perfume que, dez anos depois, passou a ser um dos mais vendidos na Europa. Demorou um tempo para a consumidora brasileira aceitar as notas de personalidade de Angel, que são uma potência olfativa de baunilha, chocolate e patchouli, mas hoje ele é um dos perfumes mais vendidos no Brasil.
Remasterize para: desde então, os gourmands e notas de patchouli evoluíram (e muito!). Hoje, é o delicado equilíbrio entre o docinho e o seco das especiarias que traz modernidade para esta família. Angel ficou bastante reconhecível com o tempo, mas se você ainda gosta de um perfume ousado, com bastante personalidade, experimente esses que também têm o mesmo efeito “cheguei!”: Flowerbomb (Viktor & Rolf), Candy (Prada), Kenzo Amour (Kenzo), Presence d’une Femme (Montblanc), Wish (Chopard), Althea (Eudora).

E aí, gostou desse verdadeiro guia de trocas perfumadas? Se animou para novas experiências? Ah, uma dica: se você está em busca de um presente bacana para a mammy neste Dia das Mães, este post pode servir como roteiro na hora da compra. Cheque as fragrâncias que ela tem no guarda-roupa e, voilá, compre uma outra que seja do mesmo grupo. Há muita chance de ela adorar…

Fotos: divulgação / reprodução marcas

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